O franco suíço e as intervenções do SNB — um porto seguro

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Aviso de risco · YMYL Este artigo tem fins exclusivamente educacionais e não constitui aconselhamento de investimento. Operar no mercado Forex envolve alto risco de perda de capital — a ESMA informa que entre 74% e 89% das contas de investidores de varejo perdem dinheiro.

Em 15 de janeiro de 2015, pouco depois das dez e meia da manhã no horário de Zurique, o Swiss National Bank fez algo que havia descartado categoricamente apenas três dias antes: abandonou o teto rígido sobre o euro. Em poucos minutos o franco se valorizou quase trinta por cento e o EUR/CHF desabou de 1.20 para abaixo da paridade. Várias corretoras quebraram naquele mesmo dia, e milhares de traders acordaram com saldos fortemente no vermelho. Este artigo explica por que o franco se comporta como um porto seguro e o que as intervenções do banco de Zurique significam para o trading.

Por que o franco é um porto seguro

Durante décadas a Suíça foi vista como o cofre financeiro da Europa. Baixa inflação, instituições estáveis, enormes reservas e uma tradição de neutralidade fazem com que, quando o mundo fica nervoso, o capital fuja para lá. Chamamos isso de demanda por porto seguro: numa crise, os investidores recuam dos ativos de risco e compram o que é considerado seguro — e, ao lado do ouro, do dólar e do iene, isso é o franco suíço (CHF).

Essa reputação tem um preço, e o banco central é quem paga a conta mais pesada. Quanto maior o medo nos mercados, mais forte fica o franco, e um franco forte é um problema para toda a economia suíça. Quase metade do que o país produz vai para a exportação — relógios, produtos farmacêuticos, máquinas, serviços financeiros — e, quando a moeda se valoriza, esses bens ficam mais caros lá fora e as margens dos exportadores encolhem. Daí o dilema crônico do Swiss National Bank (SNB): ele precisa combater a força excessiva da própria moeda, e não a fraqueza dela, o que o distingue da maioria dos bancos centrais do mundo.

O piso de 1.20 e sua defesa

Isso ficou evidente durante a crise da dívida da zona do euro. Quando a ameaça de uma ruptura pairou sobre a moeda comum em 2010 e 2011, o capital despejou no franco e o EUR/CHF se aproximou da paridade de um para um — insustentável para a indústria suíça. Em setembro de 2011 o banco deu um passo inédito para uma economia avançada: anunciou um piso rígido de câmbio e prometeu não tolerar o EUR/CHF abaixo de 1.20.

O mecanismo para defender um piso desses é brutalmente simples. Sempre que o câmbio se aproximava da linha de 1.20, o banco imprimia francos e comprava euros com eles, sem limite. A promessa de "em quantidades ilimitadas" servia para assustar o mercado e desencorajá-lo de testar a linha, porque nenhum especulador vence uma instituição capaz de criar qualquer quantia da própria moeda. Por mais de três anos funcionou — mas as reservas cambiais do banco incharam, chegando em certo momento à ordem de toda a produção anual da economia suíça.

A quinta-feira negra do franco

No fim de 2014 a pressão havia se tornado insuportável. O Banco Central Europeu preparava um vasto programa de compra de ativos que enfraqueceria o euro, o que significava que defender o piso custaria ao SNB cada vez mais francos impressos e reservas cada vez maiores. O banco enfrentou uma escolha: defender o câmbio a qualquer custo ou soltar. Ele soltou — sem aviso.

"O Swiss National Bank está descontinuando o câmbio mínimo de CHF 1.20 por euro." — Swiss National Bank, comunicado à imprensa, 2015.

A reação do mercado foi tão violenta que entrou para os livros. O EUR/CHF caiu em minutos de 1.20 para abaixo da paridade, chegando em certo momento a cerca de 0.85 — uma queda de aproximadamente trinta por cento. Num mercado em que um movimento diário de um por cento já é considerado grande, isso foi um terremoto. A liquidez evaporou, as ordens de proteção dispararam longe dos níveis em que estavam ajustadas, e as perdas superaram em muitas vezes o capital da conta.

O episódio é hoje um exemplo clássico do risco de saldo negativo. Um trader que apostava num franco mais fraco com alta alavancagem não perdeu apenas o depósito — ficou devendo dinheiro à corretora. As corretoras também sofreram: algumas não conseguiram cobrir os passivos dos clientes e quebraram ou tiveram de se salvar com capital novo. Foi por isso que os reguladores europeus introduziram depois a proteção contra saldo negativo para clientes de varejo. Vale lembrar que o varejo de Forex e CFD no Brasil costuma ser acessado por corretoras estrangeiras, e a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) alerta repetidamente contra intermediários não autorizados — verifique sempre o registro do regulador. Para entender melhor como os bancos centrais podem redefinir um mercado com um único movimento, vale explorar os fundamentos de análise fundamentalista.

Juros negativos e intervenção contínua

Remover o piso não encerrou a luta por um franco mais fraco; apenas mudou as ferramentas. No mesmo dia, o banco empurrou sua taxa de juros para bem abaixo de zero, a menos 0.75 por cento, e a manteve ali por anos. A lógica era simples: se um câmbio fixo já não pode ser sustentado, é preciso desestimular a entrada de capital no franco fazendo os investidores pagarem pelo privilégio de mantê-lo. Por um longo período a Suíça teve a menor taxa de juros do mundo.

A segunda ferramenta continuou sendo a intervenção cambial, só que agora sem anunciar um nível a defender. O banco simplesmente compra moeda estrangeira quando considera o franco forte demais, e a vende para apoiar o franco — como nos anos de alta inflação de 2022 e 2023, quando um franco mais forte ajudou a conter os preços de importação. A escala dessas operações aparece nos dados publicados pelo banco sobre depósitos à vista e reservas cambiais: uma alta súbita costuma revelar que o banco voltou a comprar moeda estrangeira. O mecanismo é parente do que o Banco do Japão faz na sua política do iene, embora o Japão defenda mais vezes contra a fraqueza do que contra a força. Compreender essas dinâmicas é parte essencial dos fundamentos do mercado.

O que isso significa para os pares com o franco

Para o trader, a conclusão prática é o que mais importa: os pares com o franco carregam um perfil de risco diferente do par de moedas comum. Em primeiro plano está o EUR/CHF, o par em torno do qual toda a saga do piso se desenrolou e que continua sendo o principal campo de ação do banco de Zurique. Em seguida vem o USD/CHF, o reflexo mais puro do humor do mercado: quando o medo global aumenta, o capital flui tanto para o franco quanto para o dólar, de modo que o par pode reagir à geopolítica de forma mais brusca do que a diferença de juros sozinha sugeriria.

O cerne da questão não é qual par escolher, mas a consciência de que o risco de cauda paira sobre cada um deles — um evento raro, porém extremo, desencadeado por uma decisão de banco central. O franco é tido como moeda "estável", e justamente esse rótulo é o mais perigoso, porque adormece a vigilância e tenta o trader a aumentar a alavancagem. 2015 mostrou que um par aparentemente calmo pode arruinar uma conta em minutos. Esse pano de fundo conecta-se diretamente à gestão de risco, porque foi a política do lado do euro que selou o destino do piso.

Equívocos comuns

O primeiro e mais perigoso é a crença de que o movimento de um banco central pode ser previsto. O banco de Zurique defendeu publicamente o piso três dias antes de aboli-lo, então adivinhar uma decisão dessas de antemão é uma ilusão. O segundo é confundir baixa volatilidade com baixo risco — o franco podia ficar numa faixa estreita por anos, apenas para saltar um terço do seu valor numa única manhã. O terceiro é subestimar a alavancagem: não foi o movimento do câmbio sozinho que arruinou traders em 2015, mas o movimento multiplicado por uma alavancagem excessiva. O quarto é tratar o franco isolado dos demais ativos de porto seguro, quando na verdade ele se move em sintonia com o ouro, o dólar e o iene.

O que fazer agora

  1. Verifique quanto você realmente arrisca nos pares com o franco. Abra a calculadora de posição da sua corretora, insira o tamanho que você costuma operar em EUR/CHF ou USD/CHF e calcule o que um movimento súbito de trinta por cento faria com o seu saldo. Se o resultado zerar a conta, reduza a posição — o exercício leva quinze minutos e remodela sua perspectiva por anos.
  2. Confirme a sua proteção contra saldo negativo. Verifique o contrato da corretora, ou pergunte diretamente no chat, se a sua conta de varejo garante que uma perda não pode exceder o capital que você depositou. Essa única cláusula decide se, num cenário como o de 2015, você ficaria com zero ou com uma dívida.
  3. Comece a acompanhar os dados de reservas do banco. Uma vez por semana, dê uma olhada nos números publicados pelo banco de Zurique sobre depósitos à vista — um salto súbito costuma ser o primeiro sinal de que o banco voltou a comprar moeda estrangeira para conter a força do franco. Não para adivinhar o câmbio, mas para enxergar quem está do outro lado do mercado.
  4. Conecte o franco aos demais ativos de porto seguro. Coloque lado a lado os gráficos de USD/CHF, do preço do ouro e do iene, e revise algumas sessões de forte medo no mercado. Você verá que eles se movem juntos — o que ajuda a distinguir um movimento impulsionado pela aversão ao risco de outro impulsionado pelo próprio banco central.
Jarosław Wasiński
Sobre o autor

Jarosław Wasiński

Editor-chefe do MyBank.pl · Analista financeiro e de mercados

Analista e profissional independente com mais de 20 anos de experiência no setor financeiro. Fundador e editor-chefe do portal MyBank.pl, em atividade desde 2004. Análise fundamentalista dos mercados de câmbio e macroeconômicos desde 2007. Escreve a partir da perspectiva dos mercados globais, com atenção ao quadro regulatório europeu (ESMA) e brasileiro (CVM).

Fontes e bibliografia

  1. Swiss National Bank Swiss National Bank discontinues minimum exchange rate · oficjalny komunikat prasowy z 15 stycznia 2015 roku znoszący minimalny kurs 1,20 franka za euro i obniżający stopę procentową www.snb.ch ↗
  2. Swiss National Bank Monetary policy and foreign exchange operations · oficjalne materiały banku o polityce pieniężnej, ujemnych stopach i interwencjach walutowych www.snb.ch ↗
  3. Bank for International Settlements Triennial Central Bank Survey of Foreign Exchange Markets · skala obrotów na parach z frankiem i pozycja CHF w globalnym rynku walutowym, edycja 2022 www.bis.org ↗

Perguntas frequentes

Por que o franco suíço é um porto seguro?

O franco é visto como um porto seguro por várias razões duradouras. Durante décadas a Suíça combinou baixa inflação, instituições estáveis, finanças públicas saudáveis e uma tradição de neutralidade política, e a tudo isso soma enormes reservas cambiais. Quando o medo aumenta no mundo — estoura uma crise financeira, um conflito armado ou um pânico nas bolsas —, os investidores retiram seu capital dos ativos de risco e buscam o que é considerado seguro. O franco cai então na mesma cesta que o ouro, o dólar dos Estados Unidos e o iene japonês. A consequência, no entanto, é uma tendência crônica do franco a se fortalecer nos maus tempos, o que atinge os exportadores suíços e obriga o banco central a reagir.

O que exatamente aconteceu em 15 de janeiro de 2015?

Naquele dia, o Swiss National Bank aboliu sem aviso prévio o câmbio mínimo fixo de 1.20 francos por euro que defendia desde setembro de 2011. Três dias antes havia assegurado publicamente que o piso se manteria, então a decisão pegou o mercado totalmente de surpresa. A reação foi violenta: o EUR/CHF desabou em minutos de 1.20 para abaixo da paridade, chegando em certo momento a cerca de 0.85, ou seja, uma queda de aproximadamente trinta por cento. A liquidez evaporou, as ordens de proteção foram executadas muito longe dos níveis fixados e as perdas superaram em muitas vezes o capital depositado. Parte dos investidores de varejo ficou devendo dinheiro à corretora, e algumas corretoras quebraram ou tiveram de se salvar com uma injeção de capital. O episódio passou para a história como a quinta-feira negra do franco.

Por que o banco central manteve juros negativos?

Quando o teto fixo de câmbio desapareceu, restou ao banco outra arma na luta por um franco mais fraco: a taxa de juros negativa. Nesse mesmo dia, 15 de janeiro de 2015, o banco empurrou a taxa para menos 0.75 por cento e a manteve nesse nível por anos. A ideia era desestimular a entrada de capital no franco: se um investidor precisa pagar pelo simples fato de manter seu dinheiro nessa moeda, seu apelo como lugar para estacionar fundos diminui. Por muito tempo a Suíça teve a menor taxa de juros do mundo. Essa ferramenta funcionava em paralelo com as intervenções cambiais: o banco comprava moeda estrangeira quando o franco estava forte demais. Os juros negativos só terminaram quando a onda de inflação global de 2022 e 2023 mudou todo o contexto da política monetária.

Vale a pena operar pares com o franco sendo iniciante?

Os pares com o franco, sobretudo EUR/CHF e USD/CHF, não são proibidos para iniciantes, mas exigem mais cautela do que um par de moedas comum. O problema não está na operação diária, mas no risco de cauda: um evento raro, porém extremo, desencadeado por uma decisão de banco central, como em 2015. O franco é tido como uma moeda estável, e justamente esse rótulo costuma ser o mais perigoso, porque tenta o trader a aumentar a alavancagem. Se você está começando, mantenha nesses pares uma posição pequena, use uma alavancagem moderada e certifique-se de que sua conta de varejo tenha proteção contra saldo negativo, ou seja, a garantia de que uma perda não vai exceder o capital que você depositou. Também vale observar o franco junto ao ouro, ao dólar e ao iene, porque esses ativos se movem num ritmo parecido nos momentos de medo no mercado.

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