O índice de preços PCE — a medida de inflação preferida do Fed

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Há um paradoxo que confunde os iniciantes. A leitura de inflação mais acompanhada nos Estados Unidos é o CPI, mas a meta de inflação do Federal Reserve não é definida sobre o CPI. O banco central mede seus dois por cento com um indicador totalmente diferente, o índice de preços dos gastos de consumo pessoal, ou PCE, na sigla em inglês. É a medida que o Fed trata como a mais importante, ainda que o mercado reaja menos a ela do que ao CPI. Neste artigo explico o que é o índice de preços PCE, como difere do CPI e por que, apesar da reação contida, ele ainda consegue mover o dólar.

O que é o índice de preços PCE e quem o publica

O índice de preços PCE (Personal Consumption Expenditures price index) é uma medida mensal de como variam os preços de todos os bens e serviços comprados pelas famílias americanas. É publicado pelo Bureau of Economic Analysis, uma agência do Departamento do Comércio. Não é um relatório autônomo. O índice PCE aparece como parte de um comunicado mais amplo sobre a renda e os gastos dos americanos, conhecido como Personal Income and Outlays, normalmente perto do fim do mês.

Assim como no CPI, duas leituras importam. O PCE geral cobre toda a cesta. O PCE núcleo retira os alimentos e a energia, as duas categorias mais voláteis, e é ele que mostra a tendência duradoura dos preços. Aqui vale guardar uma distinção. A meta oficial de dois por cento do Fed é definida sobre o índice PCE geral. O PCE núcleo, porém, é o indicador que os analistas acompanham com mais atenção, porque mostra para onde a inflação caminha sem o ruído dos preços de combustível e alimentos. Detalho o mandato e a lógica de como o banco central reage com mais profundidade na seção de análise fundamental.

Como o PCE difere do CPI

Ambas as medidas descrevem o mesmo fenômeno, a inflação ao consumidor, mas o calculam de maneira diferente, então costumam dar valores parecidos, ainda que não idênticos. Há três diferenças, e cada uma importa. Primeira, o índice PCE cobre um conjunto mais amplo de gastos do que o CPI. Segunda, usa uma fórmula ponderada em cadeia que permite que os pesos da cesta mudem de mês para mês. Terceira, inclui gastos feitos em nome do consumidor, que ele não paga do próprio bolso.

Isso soa técnico, então vamos torná-lo concreto. A fórmula ponderada em cadeia admite a substituição. Quando a carne bovina encarece, as pessoas recorrem mais ao frango, e o índice PCE reflete essa mudança de comportamento quase em tempo real. O CPI se apoia numa cesta mais rígida, então responde a essas mudanças com mais lentidão. A diferença de escopo mais importante diz respeito à saúde. O índice PCE contabiliza a assistência médica paga em nome do consumidor, por exemplo por um empregador ou por programas públicos, enquanto o CPI contabiliza sobretudo o que um americano paga diretamente. Como o gasto com saúde é enorme nos Estados Unidos, esse único item muda visivelmente o quadro.

O efeito prático dessas diferenças é que o índice PCE costuma sair alguns décimos de ponto percentual abaixo do CPI. Isso não é um erro nem uma contradição, mas uma consequência da metodologia diferente. Por isso você não pode comparar as duas leituras diretamente, uma a uma. Se você quer entender melhor como cada leitura de inflação se encaixa nas decisões de juros e nos conceitos de mercado, vale separar os mecanismos antes de tentar operar.

"O Comitê busca alcançar inflação à taxa de 2 por cento no longo prazo, medida pela variação anual do índice de preços dos gastos de consumo pessoal." — Federal Open Market Committee, Statement on Longer-Run Goals and Monetary Policy Strategy, 2020.

Por que o PCE move o mercado menos que o CPI

Como o índice PCE é o indicador da meta do Fed, você poderia esperar que ele provocasse a maior volatilidade no dólar. Na prática é o contrário, e o motivo é simples: tudo se resume ao calendário. O CPI é divulgado por volta do meio do mês, ao passo que o índice PCE só chega perto do fim, normalmente duas semanas depois. Ao longo dessas duas semanas o mercado já precificou para onde a inflação caminha, com base no CPI anterior e nos preços ao produtor.

Como resultado, quando o número do PCE finalmente chega, ele está em grande parte antecipado. Os analistas conseguem estimar seu valor com precisão razoável antes da publicação, recorrendo a componentes já conhecidos de relatórios anteriores. A surpresa é, portanto, mais rara e menor, e onde não há surpresa não há combustível para um movimento violento. Daí a regra prática de que, no dia da divulgação, o CPI move o dólar mais do que o PCE, ainda que, para a decisão de juros, o PCE tenha mais peso.

Isso não significa que um dia de PCE possa ser ignorado. Quando a leitura do PCE núcleo diverge com clareza das expectativas, por exemplo confirmando que a inflação se mostra mais persistente do que o CPI anterior sugeria, o mercado nota. Tal surpresa desloca as expectativas quanto à trajetória dos juros e pode fortalecer ou enfraquecer o dólar, ainda que em escala menor do que um CPI quente. Em poucas palavras, o PCE surpreende com menos frequência, mas, quando o faz, é um sinal que carrega peso considerável.

O que um número de PCE significa para o dólar

A lógica de como ele se traduz na moeda é a mesma de qualquer divulgação de inflação. O que importa não é o nível em si, mas a distância entre o número e a previsão. Um PCE núcleo acima do esperado reforça o temor de que os juros fiquem mais altos por mais tempo, o que costuma apoiar o dólar. Um número abaixo das previsões funciona no sentido oposto e abre espaço, na cabeça dos investidores, para cortes, o que costuma enfraquecer o dólar.

Para quem está aprendendo o mercado, a abordagem mais sensata é tratar o PCE não como chance de um trade rápido, mas como confirmação do quadro de inflação esboçado antes pelo CPI. Se os dois indicadores contam a mesma história, por exemplo ambos mostrando um núcleo de inflação teimoso, o sinal para o dólar é mais forte e mais duradouro. Se divergem, é um indício de que a tendência de preços é ambígua, e então é melhor manter cautela do que forçar uma posição. O momento da divulgação fica mais fácil de administrar quando você já aprendeu a ler o calendário econômico e a checar o horário exato do número, parte essencial da gestão de risco. Para um tratamento mais aprofundado de como divulgações como esta se encaixam no quadro macro mais amplo, veja a seção de análise fundamental no ForexMechanics.

O que fazer agora

  1. Marque as duas datas em um único calendário. Abra um calendário econômico, ajuste o filtro para os Estados Unidos e coloque lado a lado a data do CPI no meio do mês e a divulgação de renda e gastos que contém o índice PCE, normalmente perto do fim do mês às 8:30 da manhã no horário do leste, cerca de 14:30 no horário da Europa Central. Você verá então como as duas leituras se encaixam numa única história sobre a inflação.
  2. Compare as leituras em pares, não diretamente. Por três meses seguidos anote o CPI núcleo e o PCE núcleo na base anual. Lembre que o PCE costuma sair um pouco mais baixo, então não compare os números um a um, mas observe a direção e se os dois indicadores contam a mesma história sobre a inflação subjacente.
  3. Verifique se o PCE confirma o CPI. Quando o número do PCE chegar, faça a si mesmo uma única pergunta: ele concorda com o quadro do CPI anterior? A concordância fortalece o sinal para o dólar e dá mais confiança quanto à trajetória dos juros. Uma divergência é um sinal de cautela, não de uma posição rápida e apressada.
Jarosław Wasiński
Sobre o autor

Jarosław Wasiński

Editor-chefe do MyBank.pl · Analista financeiro e de mercados

Analista e profissional independente com mais de 20 anos de experiência no setor financeiro. Fundador e editor-chefe do portal MyBank.pl, em atividade desde 2004. Análise fundamentalista dos mercados de câmbio e macroeconômicos desde 2007. Escreve a partir da perspectiva dos mercados globais, com atenção ao quadro regulatório europeu (ESMA) e brasileiro (CVM).

Fontes e bibliografia

  1. Bureau of Economic Analysis Personal Consumption Expenditures Price Index — methodology and data · oficjalna metodologia i dane indeksu cen PCE, publikowanego w raporcie Personal Income and Outlays www.bea.gov ↗
  2. Federal Reserve Statement on Longer-Run Goals and Monetary Policy Strategy · definicja celu inflacyjnego 2 procent na indeksie cen wydatków konsumpcyjnych www.federalreserve.gov ↗
  3. Federal Reserve Bank of Cleveland Comparing the CPI and the PCE price index · porównanie metodologii CPI i PCE oraz przyczyn różnicy w odczytach www.clevelandfed.org ↗

Perguntas frequentes

Como o índice PCE difere do CPI e por que costuma sair mais baixo?

As duas medidas descrevem a inflação ao consumidor, mas a calculam de maneira diferente, então dão valores parecidos, ainda que não idênticos. Há três diferenças. Primeira, o índice PCE cobre uma cesta de gastos mais ampla do que o CPI. Segunda, usa uma fórmula ponderada em cadeia que deixa os pesos mudarem a cada mês, de modo que admite a substituição: quando a carne bovina encarece e as pessoas recorrem ao frango, o índice reflete essa mudança quase em tempo real. O CPI se apoia numa cesta mais rígida e responde com mais lentidão. Terceira, o índice PCE contabiliza os gastos feitos em nome do consumidor, sobretudo a assistência médica paga por um empregador ou por programas públicos, enquanto o CPI contabiliza sobretudo o que um americano paga diretamente. Como o gasto com saúde é enorme nos Estados Unidos, essa rubrica puxa o número para baixo de forma notável. A soma dessas diferenças faz com que o índice PCE costume sair alguns décimos de ponto percentual abaixo do CPI.

Se o Fed mira o PCE, por que o mercado reage mais ao CPI?

O motivo se resume ao calendário. O CPI é divulgado por volta do meio do mês, e o índice PCE só perto do fim, normalmente duas semanas depois. Ao longo dessas duas semanas o mercado já precificou para onde a inflação caminha, apoiando-se no CPI anterior e nos preços ao produtor. Quando enfim chega o dado do PCE, ele está em grande parte antecipado, porque os analistas conseguem estimar seu valor a partir de componentes já conhecidos. A surpresa é, portanto, mais rara e menor, e onde não há surpresa não há combustível para um movimento violento. Por isso, no dia da divulgação, o CPI move o dólar mais do que o PCE. Isso não significa que o PCE importe menos. Para a decisão de juros é o PCE que mais pesa, porque é o indicador sobre o qual o Fed define sua meta de inflação. Quando o PCE núcleo surpreende com clareza, por exemplo confirmando que a inflação é persistente, o mercado nota e desloca as expectativas sobre a trajetória dos juros.

Como o PCE geral difere do núcleo e qual deles o Fed observa?

O PCE geral cobre toda a cesta de bens e serviços, incluindo alimentos e energia. O PCE núcleo exclui essas duas categorias, porque são as mais voláteis: os preços do combustível podem elevar o número num mês e fazê-lo recuar no seguinte, sem nenhuma mudança na pressão duradoura sobre os preços. Aqui aparece uma sutileza que vale entender. A meta oficial de dois por cento do Federal Reserve é definida sobre o índice PCE geral, não sobre o núcleo. Na prática, porém, o PCE núcleo é a medida que os analistas acompanham com mais atenção, porque mostra para onde a inflação realmente caminha depois que se filtra o ruído dos preços de alimentos e combustível. Em outras palavras, a meta é fixada formalmente sobre a cesta inteira, mas o julgamento sobre a tendência duradoura da inflação se apoia sobretudo na leitura do núcleo. Para um investidor que vigia o dólar, a conclusão prática é que uma surpresa no PCE núcleo é a que mais pesa.

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